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VELLKER: A SEGUNDA MORTE DE ISABELLA

14, Maio/2008 · Nenhum Comentário

Se no momento em que ocorreu o assassinato da menina Isabella Nardoni não havia nenhuma testemunha por perto, em seu segundo assassinato existem milhões. Todos os dias o brasileiro é obrigado a ver e rever toda a história em torno do seu nome e saber de detalhes tais que fica a grande pergunta: é só isso que o jornalismo brasileiro tem para mostrar? Ou para ocultar?

Na verdade, mesmo com as trapalhadas da polícia, que reconstituiu o crime de uma forma ridiculamente espalhafatosa e também desastrosa, pelos erros que cometeu, podemos, pelo bom senso, perceber que ali ocorreu um crime. Os envolvidos mal conseguem manter sua versão, as contradições batem de todos os lados, mas um dos piores papéis fica para o jornalismo brasileiro, que de forma definitiva se mostra adepto da ética do vale tudo.

Num primeiro momento se denuncia um assassinato, coisa normal numa cadeia de jornalismo. Num segundo momento, que se prolonga até agora, a vítima é assassinada novamente, para alegria dos indicadores de índices de audiência e completa vergonha do jornalismo brasileiro. Afinal, se a audiência está em alta, isso significa mais anunciantes disputando o chamado horário nobre, que de nobre há muito deixou de ter alguma coisa.

Jornalistas veteranos aparecem desfiando a mesma estória de formas diferentes tantas vezes que mal se entende o que acontece de verdade e se esquece o que aconteceu, o crime é reencenado com recursos de computação gráfica até a exaustão, o promotor do caso, de forma indecorosa, aparece dando entrevistas inoportunas e ao mesmo tempo oportunistas, mas até ele mesmo já sem saber o que dizer.

Uma das atitudes mais absurdas da polícia e da promotoria foi a de pretender interditar até o tráfego aéreo durante a reconstituição do crime.

Felizes mesmo com esse segundo assassinato estão políticos e envolvidos nas mais recentes denúncias de propinas, fraudes e roubo do dinheiro público. Com o noticiário sobre a menina Isabella chegando a quase incríveis 10 minutos em algumas edições dos principais telejornais do país, os corruptos agradecem aos jornalistas.

Ficam em alguns casos expostos a reportagens de 1 minuto, onde bandidos mesmo são mostrados de forma rápida e seus nomes raramente falados, comissões como a dos cartões corporativos nem aparecem mais. Observei a cobertura de ontem sobre a CPI dos cartões. Durou 71 segundos.

Tivessem nossos jornalistas o mesmo empenho em cobrir essa e outras propinas com a mesma determinação com que na verdade assassinam a menina Isabella pela segunda vez e seria certo vermos os culpados das fraudes indo para a cadeia.

Mas a importância da política de onde se retiram apoios importantes e dos índices de audiência de onde se retiram grandes quantias em verbas publicitárias condenam a menina Isabella a ser assassinada pela segunda vez por dois agressores.

E desta vez com um terceiro agressor, antes tão procurado e agora identificado: o jornalismo brasileiro.

 

Vellker é o colaborador que trata sobre política no Administrando.

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