O esconde-esconde é um jogo onde as crianças se divertem. Freqüentemente vemos menininhas de 5 anos brincando de esconde-esconde em quintais e ruas. As autoridades do Pará, já na casa dos 50 anos, conseguiram manter esses espírito infantil e inovaram, e assim temos visto por esses dias o jogo de esconde-esconde das “otoridades” dentro dos corredores e salas de prédios oficiais paraenses no caso de apurar responsabilidades sobre quem vai assumir a culpa pela prisão e tortura da jovem de 15 anos, na cadeia de Abaetetuba.
Aprisionada por um pequeno delito, a menina foi, contra qualquer noção moderna de sistema carcerário, enfiada numa cela com mais 20 criminosos, sob a alegação de que não sabiam sua idade e não havia outra cela disponível. Num país que se notabiliza por leis que permitem a liberdade de criminosos confessos que tenham bons advogados, com seus defensores aludindo em seus pedidos aos juízes sobre o perigo de seus defendidos estarem expostos à sanha homicida e à luxúria dos presos, decidiram as “otoridades” do Pará, mais especificamente de Abaetetuba, confiarem numa súbita onda de bondade dos criminosos, que podemos deduzir, só estavam alí porque também não sabiam a própria idade.
Ao longo desse mês, a menina de 15 anos passou por um calvário de violências sexuais, foi queimada com cigarros por alguns presos e espancada outras vezes. Ou a cadeia de Abaetetuba é uma espécie de cadeia automatizada, que recolhe os presos por si mesma e fica à espera da visita do mísero carcereiro humano que uma vez por mês aparece por lá para ver se ela precisa de alguma manutenção, e aí ele viu o engano, ou então o sistema político-judiciário do Pará funciona da mesma forma: um sistema automatizado, robotizado e que recolhe suas vítimas pelas ruas a fora, sem que ninguém possa sequer pensar em esconde-esconde, a não ser as ditas “otoridades”, que cuidam de suas engrenagens. De qualquer modo, foi lamentável a atitude tanto das “otoridades” como dos supostos defensores dos direitos humanos.
Começou o jogo de esconde-esconde quando a imprensa noticiou que num estado governado por uma mulher, onde uma delegada era responsável pela prisão, onde uma juíza tinha mantido a menina presa e só o secretário de segurança paraense destoava do coral por ser homem e todos viram que o caso era sério. Ao menos para aparições públicas. Com a imprensa jogando sorvete no ventilador, todos ficaram arrepiados a cada declaração dos responsáveis, que era de uma estupidez sem tamanho. Se fossem apenas perguntas a serem respondidas num teste psicotécnico, para análise de personalidade, todos teriam sido reprovados.
O delegado geral de polícia do Pará, em audiência no Senado, afirmou que a menor era a culpada, talvez por ser deficiente mental, só isso podia explicar o fato de ela não saber a própria idade e nem gritar pedindo socorro. Talvez isso explique também o fato de ela não ter sabido nascer menino e não menina. Seja como for, para ele, ela era culpada por isso. Depois pediu afastamento do cargo.
A delegada de polícia responsável pela prisão disse que sabia que a situação da carceragem era precária, que colocar uma menina lá seria ilegal, mas não tinha outro lugar onde colocar a menina e ponto final: foi para a cadeia com mais 20 presos. Que culpa ela, delegada, tinha, afinal de contas?
A juíza responsável pelo caso, ao ser informada das condições desumanas a que estava submetida a menina presa, fez de conta que não era com ela e ignorou os pedidos de soltura, deixando-a lá mesmo, exposta a toda sorte de sevícias. O promotor de justiça que trabalha com a juíza nada fala, nada sabe e tudo ignora. Chega a ser miraculoso que “otoridades” assim saibam onde, quando e como devem receber seus polpudos salários, apesar de tão desligadas do mundo real.
A governadora petista Ana Júlia Carepa, em protestos indignados, em discursos solenes e condenações teatrais, capazes de fazer Joana D’arc se sentir a mais inútil das inúteis, prometeu as mais rigorosas apurações, as mais duras providências, as mais completas sindicâncias e coisas tais que as “otoridades” sempre prometem ao serem pegas de calças curtas. Ou calcinhas, já que sendo uma menina nessa situação, suas companheiras de sexo feminino deviam ao menos ter meditado seriamente sobre tudo isso. Parece que o feminismo no Pará, pelo menos nesse ponto, está parado nos anos 50 do século passado.
De qualquer forma, esse episódio, suas sequelas para a atingida, a confortável e bem remunerada omissão dos responsáveis, assim ditos pelo dicionário, mostra que tal qual numa frente de combate, onde vítimas caem diariamente, relembrando a frase de Erich Maria Remarque, “nada de novo há no front ocidental”.
Há sim uma coisa de novo. Triste, mas há. A de que essas “otoridades” conseguiram tranformar tribunas do Congresso, salas de justiça em fóruns, gabinetes de trabalho e corredores de repartições oficiais num bem decorado, bem climatizado e agradável jogo de esconde-esconde. Escondem-se todos e ninguém é encontrado.
Nesse jogo apenas duas coisas são encontradas: o gordo salário que recebem todo mês e alguma menina pobre e indefesa para vítima desse mesmo mês.


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