Esse é o nome de um filme nacional, que obteve boa aceitação do público. Relata a estória de um grupo de amigos, antigos jogadores de futebol aposentados, que, vivendo a velhice, alguns bem outros mal, se reuniam numa mesa cativa num restaurante, sempre para relembrar casos e histórias da vida. Sempre solícito, vinha o garçom a servi-los com cervejas e petiscos. E enquanto bebiam e comiam, relembravam todos os casos pitorescos acontecidos em suas vidas de jogadores, dentro e fora do campo.
Um grupo desses poderá lembrar coisas assim daqui a alguns anos. Em recente entrevista ao jornal de esportes do portal Terra, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, disse que a FIFA jamais aceitará uma CPI, inquérito ou qualquer coisa do gênero, por qualquer entidade política brasileira. Isso referente aos gastos que a Copa do Mundo de 2014 custará ao Brasil, em construção de estádios, prédios, infra-estrutura e tudo mais. Entende-se aí que até os mais altos membros da política brasileira já estão avisados: o campo é da FIFA, quem apita no Brasil é o juiz Ricardo e os políticos até do mais alto nível são apenas espectadores, com direito a pagar, assistir o jogo e saírem quietinhos. O povo fica fora do estádio. Comprova isso o fato de que o presidente Lula e mais 9 governadores irão até Zurique na Suíca, para oferecerem todas as garantias possíveis. O que a FIFA não quer, segundo ele, é que digam quanto vão gastar, de que jeito e no quê. Gasta-se primeiro e o contribuinte paga depois.
Ao mesmo tempo, o jornal inglês “Financial Times” destaca uma reportagem de que a Copa de 2014, no Brasil, não dispõe de nenhuma instalação digna do evento nas 18 cidades em estudo, cujos prefeitos trocam cotoveladas e tapas para dizerem que suas cidades tem sim tudo o que a FIFA exige. E se não tem, construirão de qualquer jeito. Ao mesmo tempo, o jornal diz em sua reportagem que a reputação do Brasil para os especialistas do meio esportivo no mundo está corroída por corrupção e falta de estrutura. Cita como exemplo os jogos do último Pan-Americano, que apesar do brilho dos atletas, em muitas obras os custos finais chegaram a dez vezes mais do que o valor inicial previsto. Mas a FIFA já foi clara quanto a isso: ninguém diz a ela quando, quanto vai ser gasto e no quê. Gasta-se e assunto encerrado. O país sede que arque com os custos. E de um vereador até o presidente, ninguém dá nenhum palpite. Mesmo que venha a ser realizada no Brasil mais essa Copa do Mundo, evidencia-se uma submissão a interesses estrangeiros que causa revolta mesmo. Hoje, até mesmo como devem se portar os poderes da nação brasileira, um órgão estrangeiro que trata só de futebol diz e com todas as letras: gastem e não reclamem. E nosso presidente e mais 9 governadores baixam a cabeça e seguem em obediente cortejo até a sede dessa instituição. Ao menos no tempo do regime militar um presidente como Ernesto Geisel, em termos duros, criticou a posição do então presidente Jimmy Carter pelo que julgava intromissão em assuntos internos do Brasil, cancelou o acordo militar Brasil-EUA e deu início à estruturação da indústria bélica do Brasil, que a partir de 1985, foi desmontada peça por peça pelos governos que vieram depois. Dá para lembrar até hoje o sorriso do ex-presidente Fernando Collor, quando posou para fotos de jornais nacionais e internacionais, jogando uma pá de cal no poço da Serra do Cachimbo, em área militar, simbolizando que o Brasil obedecia às ordens de governos estrangeiros e deixava de lado as pesquisas autônomas no setor nuclear militar. A obediência mostrada no sorriso e no gesto envergonhavam qualquer um que se considerasse brasileiro nacionalista.
Vendo todo esse cenário de hoje e relembrando de outros em que o Brasil seguia sua próprias diretrizes, dá para imaginar uma cena parecida com a do filme “Boleiros’”, só que essa acontecendo daqui a muitos anos, em Zurique, na Suíça. Estarão em algum confortável restaurante de lá, reunidos os antigos boleiros da FIFA, contando seus casos, com volta e meia um ou outro garçom trazendo a cerveja e petiscos. E entre comentários, agradecendo a gentileza do garçom, comentarão que ele, sempre tão solícito, foi um dia presidente de uma tal de CBF, mas nunca deixou de servi-los direito. E continuarão conversando até que o próximo garçom traga o que pediram. E comentarão também, que esse último garçom, sempre tão educado, foi um dia presidente do Brasil, mas que também sempre serviu direitinho a todos eles. Mesmo que não tenham pago a gorjeta.
Vellker é o colaborador que trata sobre política no Administrando.